Em resumo, paradigmas são construções teóricas, ideias, valores, princípios que nos orientam em relação ao entendimento das coisas, dos fenômenos, do mundo. Podemos afirmar que paradigma "é aquilo que os membros de uma comunidade partilham" (JAPIASSÚ; MARCONDES, 2008, p. 211). Um paradigma corresponde a "um modo de existência e de organização de idéias, uma sistemologia de idéias, constituindo princípios ocultos caracterizados por uma noção nuclear da realidade" (MORIN, 1985, p.19). Segundo o filósofo Capra (1993, p. 17), paradigma significa a "totalidade de pensamentos, percepções e valores que formam uma determinada visão da realidade, uma visão que é a base do modo como uma sociedade se organiza".
A concepção de paradigma resulta, portanto, da compreensão do modo como nosso pensamento é orientado para perceber o mundo, o que, por isso, determina o que vemos e o que deixamos de ver, e, em consequência, como reagimos diante da realidade. Como modo de ver, o paradigma é abrangente em relação a tudo e a todos que constituem a realidade, nada excluindo sobre ela, determinando o modo de ser e de fazer das pessoas em seu contexto. (LUCK, 2006, p. 34-35)A ideia de paradigma como modelo ou padrão a ser seguido é defendida pelo físico Thomas Kuhn no seu livro "A estrutura das revoluções científicas". Kuhn afirma que o paradigma é um pressuposto filosófico, ou seja, uma teoria que origina e sustenta o estudo de um determinado campo científico, com seus respectivos métodos e valores concebidos por todos desse grupo como um modelo.
Para Mazzotti (2006, p. 541), as ciências dedicadas a examinar e explicaro processo educacional são “modos de ver, são teorias e, como tais, estabelecem o que deve e o que pode set visto, aquilo que é posto para nós: o objeto”. Mas no âmbito de cada ciência há teorias concorrentes, cada qual considerada melhor dentre elas, do que resulta uma “dispersão epistemológica”. A pluralidade de teorias- a debandada epistemológica, segundo Mazzotti, seria irrelevante se não tivesse implicações práticas. Na falta de acordos sobre critérios- dialética- , apelamos para o ensino plural, que procura contemplar todas as teorias em uma matéria de ensino e todas as matérias que um grupo considere adequadas as possibilidades imediatas dos docentes.Frente à pluralidade de teorias, cada qual com suas propriedades, características e comunidade que as aceitam e sustentam, Mazzotti (2006, p.3) apresenta a seguinte problematização:O que o autor quer dizer com isso é que cada grupo doutrinário buscará mais e mais adeptos (e o discurso é um importante instrumento de persuasão) sendo que os mais hábeis (e eu diria, os mais aceitos por um grupo em questão) acabarão por dominar uma instituição e, eventualmente, grupos bem amplos da sociedade. É isso que ocorre no campo da educação. Há uma falsa dialética entre as teorias e seus representantes, pois que ambas as partes procuram, acima de tudo, validar suas teses por meio da desconstrução das teses dos grupos opostos, sem pautarem-se sobre critérios de acordo- dialética. Busca-se, somente, a vitória sobre outrem ."Caso os limites das Ciências do Homem decorram de uma irremediável insuficiência humana, de nossa própria condição, então não há saída, a pluralidade teórica é a expressão mesmo daquela. Pouco ou nada podemos fazer. Qualquer teoria sobre o homem tem igual valor de verdade, todas defensáveis, nada podemos esperar do debate entreseus defensores, salvo a querela".Consideremos, então, o discurso pedagógico como o mais ideológico de todos os discursos. Como, então, ultrapassarmos esse caráter ideológico?
CAPRA, Fritjof. Sabedoria incomum. São Paulo: Cultrix, 1993.
KUHN, Thomas. A estrutura das revoluções científicas. São Paulo: Perspectiva, 1982.
JAPIASSÚ, Hilton; MARCONDES, Danilo. Dicionário básico de filosofia. 5. edição. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008
LUCK, Heloísa. Gestão Educacional: uma questão paradigmática. Série: Cadernos de Gestão. Petrópolis, RJ: Vozes, 2006.
MAZZOTTI, Tarso Bonilha. Ciências da Educação em questão. Educação e Pesquisa, São Paulo, v.32, n.3, p. 539-550, set/dez. 2006.MORIN, Edgar. O problema epistemológico da complexidade. Lisboa: Publicações Europa-América, 1985.